vanitas
10/07/2010
“nós devemos morrer, mas na hora certa.” assim falava zaratrusta se referindo ao ciclo da vida e nossa, certa, tragédia final. as fotos de andres serrano nesta série intitulada the morgue, (o necrotério) podem passar para o espectador uma sensação de ruptura com seu significante. o beijo fatal, as chagas de cristo, o sono. a forma de representação através da iconografia clássica esta presente em todo o trabalho de serrano. o paralelo com a arte quinhentista e sessentista possibilita a elevação necessária para que adentremos no templo do sagrado. esta formalização busca produzir uma emoção moral no espectador, um enigma não soluto da materialização de um estado que só conheceremos no outro; lembranças de rembrandt e goya. uma força nos leva a encarar nossos corpos, nossas vidas e a ação violenta da natureza sobre o humano; o momento mori. neste afloramento se produz toda a monumentalidade desta obra, sua forma e seu conteúdo dispostos levemente sobre o significante, anteriormente rejeitado, agora revelado como um sopro silencioso. este trabalho é uma afirmação do sujeito, uma constatação da dimensão da existência, não há exclusão do observador, pelo contrário; por outro lado não há crítica o que permite que a obra nos atravesse. é tempo mais do que espaço, comunhão solitária.
toda a obra de arte tem a capacidade de produzir sentido a existência humana, indicar um caminho possível, rearranjar no caus da realidade algo passível de assimilação, de entendimento sensível, mais do que lógico. é dado a este ofício qualquer ferramenta que possa resgatar da totalidade das coisas algo que produza uma identificação. do contrário estes objetos são descartáveis. produzir estas formulações é um trabalho contante que o artista tem consigo e com o mundo, falhar e consumar faz parte do processo. é certo que a obra busca um sentido primeiramente para o artista, mas hoje a arte cada vez mais busca o outro para sua realização plena, mesmo quando ela é a impossibilidade. portanto é a capacidade de produzir este sentido que esta no centro das problematizações da obra contemporânea. mas não devemos entender este aspecto dentro de uma estrutura fechada, uma escola ou doutrina estética, o que seria ridículo hoje em dia, mas sim como contraponto que representamos neste universo.
de fato o grande descrédito em relação a arte contemporânea não se dá pelo seu discurso auto referencial. isso seria o mesmo que dizer que ela é historicista, um equívoco. esta arte de salões fechados para iniciados serve ao mercado e por este viés pouco importância terá no desenvolvimento da linguagem estética (mas deixo esta questão para um outro post). a origem desta aversão esta na frustração pela ausência de um sentido anterior a ação humana, algo que explique. seria como órfãos assutados com um mundo impossível de ser abarcado. de fato é muito mais estimulante, pois este sentido só pode acontecer em nós.
aqui vemos o dr. nicolaes tulp demonstrando através da técnica da dessecação o sentido. a luz banha o cadáver e ilumina a mente dos vivos tirando-os das trevas. a pinça do artista mergulha no mistério e a traz a superfície onde todos podem ver a verdade objetivamente. se você “olhar” bem dá para “escutar” os murmúrios de admiração - hummmm… hooooo… - este é o exato momento em que tudo faz sentido. em serrano não há um doutor ou um deus, diria até que eles não existem como estrutura em toda a arte relevante de nossa época. o que pode existir é uma latência destes elementos dando a devida movimentação ao nosso espirito. não existe alguém que demonstra, nenhum anjo ou céu, nenhuma ciência ou ideologia, apenas o fundo preto do mistério e nós a contemplar o destino anonimo sem qualquer explicação. não há sentido prévio, somente a morte violenta por doença, envenenamento, assassinato; a fatalidade. na obra de arte contemporânea nem a ciência nem a religião tem a capacidade de dar sentido a vida. o mundo atual não é harmônico e ordenado por nenhuma força que deve servir de espelho ao homem. a ciência ajudou a derrubar esta ideia assim como a religião desmoronou sobre os pilares de seus fundamentos. “o homem é uma corda atada entre o animal e o supra-homem ”. “deus está morto” não é?
and gloomy browed with superfear their tragic endless lives
could heave nor sigh in solemn, perverse serenity, wondrous beings chained to life…
…so softly a supergod cries


















